Moisés João de Deus Neto

Amigos do remo

Ontem, 28 de julho de 2010, fui esbofeteado com a notícia da morte, aos 57 anos, de Moisés João de Deus Neto. Veio numa nota breve emitida pela Remosul. Como tantos, imediatamente pensei, cheio de descrédito: “O Moisés?!” Difícil aceitar que um companheiro tão cheio de vigor e vida tivesse partido tão cedo. Um telefonema a Porto Alegre trouxe os detalhes.

Moisés e eu fomos contemporâneos na garagem de remo do Grêmio Náutico União em 1973 e 1974. Por ele ser três anos mais velho e eu ainda júnior, só competimos juntos uma vez, num quatro-sem, em 1974. E foi num quatro-sem que voltamos a reencontrarmo-nos em 2007, treinando para o Troféu Brasil de Remo Máster. A nossa guarnição não era a mais veloz. Perdemos por três barcos para o excelente conjunto do Pará. Mas deu muito prazer.

O nosso quatro-sem, composto ainda pelo voga Arlindo Dagoberto Porto Abreu e o sota-proa Carlos Alberto Fittipaldi, era uma celebração da longa amizade e do amor pelo remo que nos unia. Todos havíamos sido contemporâneos de garagem no GNU, sabíamos histórias uns dos outros e comentamos a alegria de estarmos novamente juntos, como na juventude. Foi o delicioso reencontro na água de velhos conhecidos que compartilhavam memórias de tantas madrugadas passadas juntos ao cabo do remo, de histórias da Ilha do Pavão e do remo gaúcho.

Com o Moisés morrem as deliciosas narrativas contadas por um dos seus protagonistas das incursões noturnas ao restaurante do Moreira na Ilha para roubar sorvete ou do famoso buraco no teto para ver as mulheres trocando de roupa no vestiário. Tais aventuras não foram do meu tempo, mas fazem parte do folclore do remo unionista. Narradas de forma entusiasmada e detalhada pelo Moisés, tinham um gosto especial para quem conheceu a antiga garagem de madeira, destruída num incêndio. Tudo isto revivemos enquanto treinávamos o quatro-sem.

Certamente teria sido muito bom vencer os paraenses no Troféu Brasil, mas, sinceramente, o resultado na regata foi secundário. A alegria daquele reencontro num barco era o maior prêmio. Hoje permanecem apenas na lembrança a dificuldade do Moisés de ficar calado na proa, as suas frases cheias de opiniões geralmente iniciadas por um “mas vem cá, tchê...”, o seu humor seco e, principalmente, o imenso amor pelo remo.

A morte dele – mal súbito enquanto remava o seu skiff seguido de afogamento ao virar o barco – é chocante pela perda de um companheiro tão cheio de vida. Mas não envolveu dor ou sofrimento. Ele morreu fazendo o que amava: remar.

A notícia fez-me pensar no tempo que gastamos em disputas vãs, na perseguição de ideais egóicos e outras coisas menores ao invés de vivermos e celebrarmos a vida como ela merece. Naquela breve semana em 2007, dentro de um quatro-sem, conseguimos isto. E isto sempre deixará saudades, Moisés, Mãesés, Caramujo (os teus apelidos pelos quais nunca mais poderei te chamar).

José Luiz Emerim

 
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